Por Vinnas

Introdução

Em 2013, a informação na Internet ainda era compartilhada, majoritariamente, em fóruns e blogs, antes de migrar para redes sociais e aplicativos. Eu era participante ativo do fórum Greennotes (www.greennotes.mus.br), que se iniciou por volta de 2003. Na mesma época (2013), a Custom Shop Music Maker estava se consolidando no mercado, e os integrantes tiveram a ideia de fazer nada menos que uma guitarra comemorativa dos 10 anos do fórum. Batizado de “GN 10th”, o projeto consistiria em 10 guitarras baseadas no modelo Custom Pro, com pouca margem de variação entre elas (na verdade, permitiu-se apenas escolher entre modelos de humbuckers da Suhr e modelo e tipo de ponte).  Além da possibilidade de adquirir um instrumento exclusivo com specs únicas, desconto de uns 25% no preço de tabela foi um outro grande atrativo.

Guitarra Music Maker GN10th


Após a convocação inicial via post, em cerca de 24 horas todas as cotas foram preenchidas. Seguiram-se acaloradas discussões sobre como seria o modelo: madeiras, shape do corpo, raio da escala, número de trastes, ferragens, etc. Por fim, decidiu-se entre os dez cotistas (muitos com bastante experiência em guitarras de alto nível – Fender C.S., Suhr, Tom Anderson, PRS, Music Man – inclusive um deles viria posteriormente a abrir a loja The Tone Boutique) que o modelo seria uma superstrat com corpo em Basswood/maple, braço e escala em maple, 2 humbuckers sem tone. Ponte Gotoh 510 ou Floyd Rose. Um modelo similar às Wolfgang/Axis, com alguns twists. Uma stripped-down Rock Machine na cor verde e com marcação de pata de cachorro na 12a casa.

Detalhe da marcação

O lote completo foi exposto no stand da Music Maker na feira Expomusic de 2013 e deve ter rendido boas histórias para quem viu 10 guitarras “gêmeas” todas juntas. A guitarra que recebi foi a 06/10, e uma das duas únicas com ponte Gotoh. Captadores Suhr SSV/SSH+ completam o pacote, além de tarrachas Sperzel com trava. Das dez, uma única recebeu tampo em quilted maple, a 01, e foi oferecida por consenso geral ao guitarrista José Luiz Gemignani, administrador geral do fórum e excelente músico de hard-rock, muito conhecido na cena de Sampa.

O review será dividido em duas partes: a 1ª corresponde a um review postado no próprio fórum em 2013. A 2ª contém observações atualizadas, após 6 anos de utilização.

Review publicado no fórum em out/2013

Vou iniciar este reproduzindo o que disse a Ivan (nota: o CEO e master builder da empresa) quando a guitarra estava na fase final de ajustes, permitirá fazer ideia do que eu imaginava para esta guitarra:

“Breve histórico: quando pintou a chance de participar dessa cooperativa do GN não pensei duas vezes, por que embora eu já tenha algumas superstrat (Charvel, Wolfgang), essa surgiu como a superstrat, por juntar num instrumento só características que faltam nas outras. Sem falar na reconhecida qualidade Music Maker e no barato de ter um instrumento “série limitada”, junto aos amigos do fórum.

Então é isso: busco nessa guitarra o timbre (claro), mas também o conforto para conseguir tocar umas linhas mais complexas, com grandes aberturas (foi ideia minha a escala de 25″), daí o setup com ação muito baixa etc.

Seguem mais alguns detalhes importantes do setup, já que depois que a guitarra chegar fica mais difícil eu levar aí na MM.

1. Neck relief, gostaria dele o mínimo do mínimo. Gosto do braço o mais reto possível.

2. Ação a mais baixa que for possível. Se tiver de elevar um pouco a ação nos bordões, sem problema.

3. Ação na saída das cordas, no nut = a menor possível também.

4. Flutuação da ponte: subindo pelo menos um tom, na corda G.”

Quanto ao delivery, houve o atraso na entrega que a maioria já deve saber (era para ter sido entregue ao final da feira (Expomusic), domingo 22/09, e só a recebi na sexta-feira, dia 11/10 – um atraso de 20 dias).

Impressões gerais:

Fui buscar a guitarra no posto da Gol Log situado próximo ao Aeroporto. Foi despachado em São Paulo na 5a feira e na 6a feira às 15:30 já estava disponível. Ela veio num case “Music Maker” com acabamento lembrando um tweed. A parte interna dele deixa muita folga (uns 5 cm pelo menos), e não foi colocado no corpo nenhum calço, plástico-bolha ou outro tipo de proteção. Embora seja bem acolchoado internamente, a ideia de essa guitarra ter vindo sambando dentro do case me desagradou um pouco.

A guitarra é bem construída, bem acabada, leve, com flamed no braço e escala que ao vivo são bem mais bonitos que nas fotos.

Achei a pegada do braço como se um misto do braço da Wolfgang (Peavey) com a Silhouette. É um pouco mais “gordo” do que imaginei, embora não seja desconfortável. Aparentemente o perfil é um pouco assimétrico (embora possa estar errado). Notei logo a escala de 25” de comprimento (Nota: esta especificação foi ideia minha. Sempre achei que o playing nas superstrats poderia se beneficiar de escalas mais curtas, como as das Gibson de 24,75″. As Kramer Nightswan, modelo signature de Vivian Campbell, possui essa rara característica). Tenho um teste particular de aberturas que consiste em tocar o run ascendente do 2o solo de Mr. Crowley (o que começa no F da 1a casa). E de fato esse run ficou mais fácil de executar.

Já li tanto e já me falaram tanto sobre os tais trastes em inox que fiquei com uma expectativa muito grande, e embora seja algo de fato muito legal, não foi aquela coisa “ooooh!”. Não achei mais fácil fazer bends nem nada muito diferente dos bons e confiáveis trastes 6100 Dunlop polidos.

Trastes inox

O raio da escala, embora de 10-14”, me pareceu (a olho nu e na pegada) ser inteiro de 14”. Não obstante, o set-up está muito bom e ação bem baixa (embora não colada), com pouco fret buzz.

Da ponte 510, gostei muito. Muito mais funcional e bem-feita que a ponte da Luke (a ‘vintage’ da Music Man). Apesar de flutuando, quase não faz ângulo. E o manejo é macio, achei muito perto da fluidez de uma Floyd Rose.

Os captadores são muito bons (Suhr SSH+/SSV), deixam a madeira falar e destacam as notas, sem embolar o som. Ótimo pra quem usa voicings além de tônica + quinta, o que é meu caso.

De modo geral, sobre o acabamento eu diria que me lembrou muito a Peavey Wolfgang. É muito bom, é bem-feito, mas não tem a delicadeza – na falta de um termo melhor – das Music Man, por exemplo. Mas isso não é nenhum demérito. O instrumento passa muita confiabilidade, é muito “justo”, estável e bonito. Não à toa, estamos falando de um dos melhores luthiers em atividade no Brasil. 

De críticas, muito poucas, teria apenas:

1. A falta de proteção dentro do case;

2. Não terem vindo as chavinhas para regular saddles, os dois postes da ponte, nem a mola extra da ponte (a 3a mola);

3. O atraso na entrega do lote;

4. Pequenos arranhões na altura dos parafusos (onde ficaria o neck plate, caso ela tivesse).

Enfim, essas guitarras não tinham como dar errado, graças à combinação de peças, madeiras, boas specs e a expertise de quem as construiu. Mais do que um enfeite de parede, uma lembrança pelo aniversário de um fórum, é instrumento para ser usado e abusado sem moderação. Poucas coisas eu faria diferente em uma eventual “Vinnas Signature”. Mudaria shape de braço, que teria 22 trastes e outro tipo de marcação, alguma configuração nos switches da parte elétrica e realocaria o captador da ponte para ficar mais próximo à ponte alguns milímetros.

Comentários extras (2019)

Tenho usado a guitarra por bons 6 anos (mais intensamente de 2018 em diante) e continuo com as mesmas impressões iniciais, porém acrescento alguns outros comentários. Hoje utilizo a ação mais alta e cordas .010, de modo que a guitarra está num set-up que permite transitar com louvor por várias variantes do rock, pop e blues.

A guitarra retornou poucos meses após o recebimento para um reparo no tampo (havia algumas mossas visíveis, porém não tácteis), oportunidade em que pedi um reshape no braço, que o deixou com uma espessura intermediária entre a da minha velha Charvel 385 e a da Peavey Wolfgang Special. 

Cogito instalar um push-pull ou fazer algum rewiring (a chave é de 5 posições) para conseguir splitar os captadores isoladamente. Creio que na configuração de fábrica nenhum dos captadores se torna bobina única, sozinho.

A escala desenvolveu uma tonalidade amarelada em alguns pontos, alguns anos após o recebimento; ao comentar sobre isso com Ivan ele pediu que levasse ela lá para ele ver/resolver. Para quem não mora em São Paulo isso pode se tornar uma dor de cabeça, de modo que deixei quieto e passei a enxergar esse fenômeno como um “natural relic”.

As ferragens douradas também sofreram um desgaste em alguns pontos, sem ferrugem, apenas esbranquiçamento.

Por fim, gostaria que as marcações da escala fossem escuras. Madrepérola sobre maple, ainda mais flamed, pode se tornar um pouco confuso (principalmente para quem possui forte astigmatismo como eu).

Nem todos os proprietários originais mantiveram suas guitarras, de modo que eventualmente uma dessas 10 máquinas surge para venda no Mercado Livre e grupos de vendas no Facebook. Todos os instrumentos possuem certificado de originalidade assinado por Ivan Freitas.

Em resumo, trata-se de instrumento confiável, bem construído, com excelente sonoridade. Recomendo a Music Maker e decerto construiria outra guitarra solidbody com eles.

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